Fui educada a não reclamar (e talvez por isso reclame em silêncio)
Fui educada a não reclamar. E, para ser sincera, acho que a minha personalidade também nunca me deu grande espaço para isso. Fico genuinamente envergonhada quando alguém à minha volta começa — mesmo educadamente — a protestar por um serviço, um produto ou um atendimento.
Prefiro seguir o exemplo dos meus pais. Quando não gostavam de alguma coisa, não faziam barulho. Simplesmente diziam:
“Este já tem uma cruz à porta.”
E pronto. Estava decidido.
Freelancing: a sorte que se constrói
Trabalhar como freelancer foi, sem dúvida, uma das melhores decisões da minha vida. Arrisquei, e pode-se dizer que tive “sorte”. Coloco a palavra entre aspas porque acredito mesmo que a sorte se constrói.
Todo o esforço, dedicação e honestidade ao longo dos anos acabaram por ser recompensados. Clientes e trabalho não me faltam — felizmente.
O problema? Fornecedores.
Quando o problema não é o cliente, mas quem presta o serviço
Nas empresas onde trabalhei, nunca tive de me preocupar com orçamentos. Essa não era a minha praia. O briefing já vinha pronto e eu fazia o que sabia fazer melhor: criar.
Agora é diferente.
Faço os meus próprios orçamentos e, quando o trabalho depende apenas de mim, é simples: tenho um valor por hora, estimo o tempo necessário e apresento a proposta ao cliente.
Mas quando entra um serviço externo, tudo se complica.
Esperar, esperar… e não querer ser “maçadora”
Peço orçamentos e fico à espera. Dias.
Como não gosto de ser insistente, espero mais um pouco. E mais um pouco.
Quando começo a sentir vergonha de dar feedback ao cliente por falta de resposta do fornecedor, sei que já passou tempo a mais. Envio novo email. Nada. Telefono. Parece que estou a ligar para um serviço público.
Depois vem a resposta clássica por mensagem:
“Estou com muito trabalho, logo que consiga envio.”
Resultado?
Uma cruz à porta.
“Uma freelancer não tem clientes com l’argent”
Quando o pedido envolve grandes quantidades — e valores mais generosos — a coisa piora.
Há quase uma presunção de que uma freelancer não pode ter clientes com dinheiro.
Como se fosse preciso “pedinchar” para ser levada a sério.
Mais uma vez:
uma cruz à porta.
O verdadeiro stress: prazos (e silêncios)
O pior é quando existem prazos apertados.
Pergunto se conseguem cumprir. A resposta é quase sempre positiva.
Envio o ficheiro para produção e fico tranquila.
Até ao dia em que envio mensagem para saber o ponto da situação.
Visualizado.
Silêncio.
Começo a hiperventilar 😊
Telefono. Vai para voicemail.
E finalmente chega a resposta:
“Desculpa, apareceu um trabalho grande, não vou conseguir.”
Outra cruz. Sem hesitar.
Cruzes acumuladas e trabalhos que dão medo aceitar
Com tantas cruzes à porta, comecei a evitar trabalhos que impliquem produção. Simplesmente já não sei em quem confiar para pedir valores.
Mas às vezes não dá para recusar.
O projeto é importante demais para o perder.
Então benzo-me…
E lá vou eu para mais uma batalha 😊
Não é por ser mulher. É por ser freelancer.
Não quero acreditar que isto tenha a ver com ser mulher. Nunca fui feminista e não é agora que vou começar a culpar o género.
Acredito mais que seja por ser freelancer.
Em Portugal, quem passa recibos verdes ainda parece não inspirar confiança.
Já me informei sobre abrir empresa — mas se as despesas atuais com o Estado já são deprimentes, as de uma empresa são simplesmente assustadoras.
E o Estado… inspira menos confiança ainda
Às vezes penso que o dinheiro dos meus impostos vai para almoçaradas e viagens.
Não ajuda à confiança. Nem à motivação.
