O Karma do Designer Gráfico

Out 8, 2025 | Artigos

Entre o talento e a (auto)ironia

Devo ser uma excelente profissional ou, pelo menos, gosto de pensar que sim porque, caso contrário, sou uma tremenda idiota e ingénua.

Nesta minha caminhada tardia pelo mundo do design gráfico, já estive nos dois lados da “barricada”. Trabalhei em gráficas e em gabinetes de design (pequenas e médias empresas).
Quando comecei como designer, além do trabalho criativo, também era arte-finalista e produtora gráfica.


Da criatividade ao lado técnico

E isso, meus caros, significa que já passei muitas horas a discutir margens de corte, a olhar para cores que “não batiam certo” e a explicar pela milésima vez que o monitor não imprime em CMYK.
Aprendi que um bom design não vive apenas de ideias bonitas, vive também de tinta, papel, vinil, cola e, sobretudo, paciência.

Ser arte finalista ensinou-me a respeitar o lado técnico: aquele que garante que o trabalho chega à gráfica e volta de lá tal como o cliente o viu no ecrã (ou quase).
Já a parte de produtora gráfica obrigou-me a falar fluentemente “grafiguês” , essa língua secreta das gráficas feita de códigos, gramagens e prazos impossíveis.


Quando o design ganha vida

Hoje, quando crio um design, penso logo em como ele vai ganhar vida no mundo físico.
Não é só estética, é planeamento, é prever luz, chuva, textura e até quem vai montar a placa (esta é a parte mais difícil 😅).

Às vezes bate a preguiça e faço apenas uma maquete rápida, com a imagem e, no máximo, as dimensões, e fico à espera que a gráfica me “safe”.
Mas é tempo perdido, esqueço-me de que, do outro lado, já não está uma “Ana idiota” para resolver a situação.

No fundo, ser designer, arte-finalista e produtora gráfica é ser um pouco criadora e bombeira ao mesmo tempo: crio, apago fogos e ainda garanto que tudo corre bem até ao fim.


O outro lado da barricada

Quando trabalhava em gráficas, era eu quem salvava o dia.
Chegavam-me ficheiros tortos, sem sangrias e com fontes a desaparecer, e lá ia eu, tipo médica de urgência fazer transfusões de CMYK e a ressuscitar logótipos pixelizados.

Reencaminhava o trabalho para o cliente confirmar se estava tudo certo, porque o design não era meu e podia, sem querer, eliminar algum texto ou imagem.
Mas confesso: mesmo depois de aprovado, voltava a rever. Já não era a primeira vez que um trabalho aprovado corria mal… e, adivinhem? Sobrava para mim.

Sim!!! Essa parte do processo em que ninguém quer assumir a responsabilidade.
Acreditem ou não, já recebi um telefonema às 6 da manhã porque a gráfica do bordado achava que o logótipo estava errado — e tinha razão.
E a quem é que a colega responsável ligou? Pois é… a mim.
Em modo catatónico, tive de assumir a responsabilidade. Afinal, o cliente tinha aprovado.

Agora, do outro lado da barricada, o jogo virou: quando envio um ficheiro com algum erro, a gráfica limita-se a devolvê-lo com um “não está bem”, sem manual de instruções.
E lá fico eu, a olhar para o ecrã, a decifrar o enigma e a corrigir tudo sozinha.
E se ainda assim algo continuar mal, eles não se dão ao trabalho de corrigir.

Ironias do destino: antes era eu quem resolvia, agora sou eu quem é posta à prova.


O verdadeiro karma do design

No fim de contas, acho que é isso que me torna uma profissional mais completa: já estive dos dois lados e aprendi a valorizar cada etapa do processo.
Hoje sei que um bom design não termina no ecrã, nem na gráfica, termina quando o resultado final faz sentido, visual e tecnicamente.

Continuo a errar, claro, mas cada ficheiro devolvido é apenas mais uma oportunidade de rir, aprender e fazer melhor.
Afinal, ser designer é isso mesmo: criar, ajustar e reinventar sempre com um cigarrinho por perto. 🚬😎