Quando o Design não é a Parte Mais Difícil
Ser designer é criar. É conceber uma ideia, escolher a tipografia, ajustar as cores até tudo encaixar. É sentir aquele clique perfeito quando o layout, finalmente, respira.
Mas há uma parte de que ninguém fala. A parte em que, de repente, deixas de ser apenas designer.
E passas a ser… responsável de compras.
A parte que ninguém vê
Durante muito tempo, o meu mundo resumia-se à criação. Entregava o ficheiro, afinava detalhes, fechava o projeto. Tudo simples.
Até começar a lidar com produção.
Encontrar a gráfica certa.
Pedir orçamentos.
Comparar preços.
Perceber tipos de vinil.
Confirmar prazos.
Negociar valores.
De repente, o meu trabalho já não era só criar.
Era procurar fornecedores.
Era garantir que o tecido para bordado era o adequado.
Que a estampagem não falhava.
Que o resultado final não comprometia aquilo que idealizei.
Mas eu sou designer, certo?
Há dias em que penso: estudei para criar identidades, não para andar a pedir orçamentos.
Não foi para isto que aprendi composição, hierarquia visual ou branding.
Mas a realidade de quem trabalha por conta própria é diferente.
Se eu não encontrar a gráfica certa, quem sofre é o cliente.
Se eu não validar o fornecedor, o erro acaba nas minhas mãos.
Por isso, sim, o meu trabalho passou a incluir falar com fornecedores.
Mesmo que não seja essa a parte que me faz levantar da cama com entusiasmo.
O lado invisível do design
Muita gente acha que o trabalho termina quando o logótipo é aprovado.
Enganam-se.
Às vezes, é aí que tudo começa.
Começa a fase prática. A fase técnica. A fase burocrática.
É nesse momento que percebemos que ser designer é muito mais do que abrir o Illustrator.
É resolver problemas.
É proteger o cliente.
É garantir qualidade.
Mesmo quando isso significa sair completamente da nossa zona de conforto.
E a verdade é que nem sempre é fácil. Há alturas em que apetece desistir de tudo e abrir um café numa praia qualquer.
Como lidar quando um fornecedor, no próprio dia, simplesmente cancela?
Não quero julgar ninguém. Cada pessoa tem a sua realidade. Mas o impacto é real. Projetos atrasam. Clientes esperam. E a responsabilidade fica comigo.
Nesses momentos, a vontade é largar tudo e começar outra coisa. Mas depois respiro fundo e lembro-me: isto também faz parte.
É o lado menos bonito, mas é real.
A verdade que quase ninguém conta
Trabalhar como freelancer é acumular funções.
Designer.
Gestora.
Atendimento ao cliente.
Responsável de produção.
Responsável de compras.
Nem sempre é confortável.
Nem sempre é aquilo de que mais gosto.
Mas faz parte do crescimento.
Talvez o verdadeiro profissionalismo esteja exatamente aí. Em assumir o processo completo, mesmo as partes que não escolhemos.
Porque no fim do dia, não entrego apenas um ficheiro.
Entrego algo real.
Algo que existe fora do ecrã.
E, no fundo, é isso que torna tudo mais sério. E também mais gratificante.
