Agradar a gregos e troianos

Nov 28, 2023 | Artigos

Terá o marketing ideologia? A minha perspetiva

Há algum tempo li um artigo de opinião no Eco.Sapo com o título “Terá o marketing ideologia?”.
A pergunta ficou a ecoar na minha cabeça e fez-me refletir bastante. Então resolvi escrever também sobre este tema, mas a partir do meu ponto de vista e experiências.


Quando a criatividade bate de frente com a ética

Voltei no tempo, à época em que trabalhava na Moita e no Montijo. Como amante de animais, devem imaginar o meu sofrimento quando tinha de usar a criatividade para trabalhos ligados a touradas.

Sabem aqueles sketches dos filmes? Pois… quando o comercial me enviava esse tipo de pedido, eu levantava-me furiosa e dizia:

“Se achas que vou fazer este trabalho deves estar a delirar, JAMAIS!!!” (com sotaque francês).

Depois, claro, saía do “modo patroa” e já perguntava com um ar profissional:

“… não consegues as fotos com melhor qualidade?” ☹

Hoje posso afirmar com absoluta certeza: trabalhos para touradas, jamais!
Não me considero radical, sei que infelizmente há quem goste, mas mantenho a esperança de que um dia esta prática seja abolida da nossa sociedade.


O poder (e a armadilha) das cores

Outro episódio curioso aconteceu também nessa altura, na Moita. Um cliente pediu-me um logotipo. Já não me recordo da área, mas decidi usar o vermelho — cor que para mim representa força, confiança e paixão.

Quando recebi o feedback, não consegui parar de rir. O cliente explicou, de forma educada e com muito humor, que não comia carnes vermelhas, só vegetais verdes, e que era do Sporting.
Como boa sportinguista, reconheci logo a falha e alterei a cor para verde — que também pode significar tranquilidade e qualidade.

Fiquei a pensar: e se fosse um benfiquista? Teria achado piada?
Ou, se fosse o contrário — alguém que dissesse: “Só como salmão e saladas com tomate e pimentos vermelhos” — não teria soado ridículo, como um caso grave de clubite aguda?

Nestes casos, claro, o trabalho era feito. Mas fica a reflexão: até que ponto as nossas escolhas criativas são influenciadas por contextos sociais, culturais e… clubísticos?


Ideologia, consumo e contradições

A verdade é que, muitas vezes, fico com a consciência pesada. Também tenho as minhas ideologias sociais e políticas, mas o trabalho precisa ser feito. E, no final, cabe ao consumidor escolher comprar ou não.

Vejo com alguma ironia quando certas pessoas dizem (nas redes sociais ou no café) que não voltam a uma determinada multinacional porque esta manteve operações na Rússia… e depois compram online na SHEIN, sabendo perfeitamente como e onde produzem os seus artigos.

Ou quando alguém decide não comprar um produto apenas porque a marca patrocina um humorista de direita, mesmo que o produto seja de qualidade excecional.


Confissões de consumidora

Eu, como consumidora, só tenho um cuidado constante: verificar se os cosméticos que compro não fazem testes em animais.
De resto, compro o que gosto e o que está dentro das minhas possibilidades financeiras. Muitas vezes só reparo no “Made in…” quando chego a casa — e aí vem a pergunta incômoda:

“Será que foi feito por uma criança?”

Infelizmente, é impossível travar certas economias globais. Mas uma coisa é certa: ninguém me pode acusar de hipocrisia.
Não ando a declarar aos quatro ventos que não compro isto ou aquilo por motivos ideológicos. Afinal, as marcas nem sabem quem eu sou… e pouco se importam com a minha opinião. 😊


👉 E tu, já te perguntaste até que ponto o marketing, o design e até as tuas escolhas de consumo carregam ideologia?