O meu primeiro calote

Jul 29, 2025 | Artigos

O dia em que levei o meu primeiro calote

(e ainda assim continuo a confiar)
A eterna discussão dos adiantamentos

Há quem peça 50% antes de começar. Outros só avançam com contrato assinado, carimbado, reconhecido no notário e, quem sabe, até com testemunhas.
Eu? Eu acreditava (e ainda acredito) que a confiança vale mais do que qualquer adiantamento.

Mas a verdade é que… nem sempre corre como esperamos.
Sobrevivi. E aprendi. (Mais ou menos.)

Porque não peço adiantamento?

Simples: porque o cliente pode não gostar do trabalho. E pagar antes, para depois se sentir “obrigado” a aceitar algo que não o convence, não me parece justo.
Claro que há exceções. Por exemplo: as gráficas. Essas sim, faz sentido pedirem adiantamento, têm custos reais com produção e, à partida, o trabalho já está aprovado.
Mas… mesmo assim, podem surgir imprevistos.

Lembro-me de uma situação em que era necessário produzir um pop-up para um evento com convidados importantes. A produção decidiu imprimir no próprio dia, porque o evento era só à noite.
Errado! A minha colega desapareceu no momento crítico e sobrou para mim atender o cliente furioso. Ainda hoje fico corada ao lembrar-me da resposta improvisada:

“…acho que os meus colegas já estão a caminho…”

No dia seguinte, o ambiente no escritório dava para “cortar à faca”.

O meu método (antes do calote)

Hoje em dia, costumo enviar uma proposta completa juntamente com o orçamento. Pode parecer tempo perdido, mas na maioria dos casos, resulta.
Quando o cliente pede apenas o orçamento, envio com tudo bem descrito:

✔ 3 propostas
✔ Ficheiros finais em PDF, prontos para impressão
✔ Até 2 revisões incluídas
✔ Materiais e medidas claras

Depois há aqueles (raros) que pedem, aprovam, recebem e… pagam.
Sem dramas. Sem desaparecimentos. Sem desculpas.

Até que um dia… recebo aquela chamada.

Tudo começou com uma chamada promissora

Era um número desconhecido.
A pessoa identificou-se, era de uma empresa que tinha gostado de um trabalho meu anterior, feito numa gráfica onde trabalhei. Nem perguntei como conseguiram o meu contacto. Fiquei contente.

Queriam orçamento para cartões de visita e pastas.
Claro que não pedi adiantamento.
Era uma empresa grande, daquelas que (achamos nós) “faturam milhões”. Quem era eu para desconfiar?

Orçamento enviado com todos os detalhes, até o cortante das pastas.
Design feito, três propostas apresentadas, e uma aprovada à primeira.
“Que maravilha! Os clientes deviam ser todos assim”, pensei eu.

Como era em Lisboa e não me apetecia enfrentar o trânsito caótico da capital, pedi à gráfica que enviasse diretamente ao cliente. Sempre correu bem.
Confiei.

O momento em que tudo começou a correr mal

Dias depois, recebo a mensagem:

“As pastas só pesam 45 gramas, as anteriores pesavam 70 gramas.”

O meu cérebro deu um nó. “Que tipo de cliente pesa os trabalhos? O que vem a seguir? Avaliar o cheiro do papel?”

E não parou por aí:

“A badana é pequena.”
“Não vieram fechadas.”
“O papel é demasiado fino.”

Enviei novo orçamento. O que pretendiam ficava o triplo do valor. Comecei a perceber que ia levar o meu primeiro calote.
Tentei baixar o preço, só para não sair prejudicada… mas estava a falar para o vazio.

No fim, perguntaram:

“Quer que enviemos o material de volta?”

Já farta, respondi:

“Podem deitar fora.”

Fez “mossa”? Um pouco, mas lembrei-me de uma frase do meu pai:

“Nem eu fico mais pobre, nem eles ficam mais ricos.”

Moral da história?

Não há uma fórmula mágica. Há quem trabalhe só com adiantamento e se sinta mais protegido.
Eu continuo a confiar, mas hoje com os olhos mais abertos, menos romantismo e mais bom senso.

Porque cada “calote” é uma aula.
E a primeira… nunca se esquece.